RECORDANDO BETO PERCIANO

                                                                                 

Por Renato Pires Mofati.

 

O COFRE

 

Primeiro gostaria de dizer que os nomes das pessoas citadas aqui nos contos de Beto Perciano, são de amigos e que tenho toda a consideração e carinho.

 Às oito horas, o serviço transcorria normalmente na agência do Banco do Brasil. No térreo, os funcionários de atendimento ao público, preparavam os papéis e o dinheiro; no primeiro andar, os encarregados da contratação de empréstimos na Carteira de Crédito Agrícola e Industrial (CREAI) davam os últimos retoques nos contratos a serem assinados no dia; no subsolo, onde estava localizada a reserva, com sua imensa caixa-forte, em cujo interior estava o numerário da agência e importantes documentos, os contínuos, que tinham terminado a limpeza do prédio e servido o cafezinho, aguardavam para iniciar as tarefas especiais que lhe foram determinadas. O Benito Poldi, contador e tesoureiro do Banco naquela época, deixara a caixa-forte aberta para a execução de serviços no seu interior.

Naquele dia, o Antônio Acha Neto (o Didiu), o Vanderlei Turra e o Getúlio Darcy Pires, foram encarregados de incinerar velhos papéis da caixa, de validade vencida, e de faxinar a arrumar o almoxarifado. Terminados os serviços de faxina e arrumação no almoxarifado, começaram a tirar os papéis para incineração. Pegavam-nos na caixa forte e os levavam até o crematório, nos fundos do prédio.

O expediente começara. Os clientes no térreo e no primeiro pavimento, iam sendo atendidos. De repente chega o Vanderlei, todo esbaforido, e comunica ao Benito:

- Doutor Benito (assim chamado por ter concluído brilhante o curso na Faculdade Nacional de Direito do Rio de Janeiro), o Getúlio e o Didiu estão trancados na caixa-forte. Fechei a porta e dei uma volta em seu segredo, de brincadeira, para assustá-los. Tentei, mas de modo nenhum, consegui abri-la.

A caixa-forte fora construída dentro de rigores nunca vistos, no seu interior, em caso de inundação não entraria água, o que anteriormente já causara prejuízos e transtornos. Se não entra água, ar também não entraria. Os dois poderiam morrer asfixiados.

O Benito, homem calmo e conhecedor dos segredos da fechadura, desceu as escadas para o subsolo e manipulou o segredo da porta, sem que ela abrisse. Estava nervoso. Também era impossível que não estivesse: os dois colegas corriam risco de vida. Depois de vinte minutos e de várias tentativas, porém, conseguiu libertá-los.

Meia hora depois, o Getúlio que juntamente com o Didiu, passara por maus momentos, narrava o que acontecera no interior da caixa-forte.

- Nós, que escutávamos os tênues ruídos da porta, sem que ela abrisse, entramos em pânico. Já sentíamos até falta de ar. O Didiu, mais apavorado do que eu, atirou-se de joelho ao chão e fez um juramento, mais ou menos assim:

- Ah! Meu Deus! Eu Lhe prometo: nunca mais farei “mironga” na CASSI e nem olharei para outra mulher! Socorro, D. Cleide! Ah! Dona Cleide, jamais olharei nem mesmo para aquela mulatinha gostosa do Bar Guarani!