MINICONTOS DE VERÃO

  Por Renata Mofatti

 

O BARQUINHO

 

Vento, sombra, dia de luz... Maysa Monjardim e a canção “O Barquinho” no meu fone de ouvido. Lá fora, ouço “Requebras”, “Dejavu” e “Dança da Bundinha”. E nada disso importa. A mãe acompanha o balanço do filho. Ele aponta para o ultraleve, ela beberica água de coco e a brisa permite o esquecimento das finanças, do sufoco.
Ainda é Janeiro... O barquinho desliza, os turistas tão poucos - por conta das enchentes e tragédias de fim de ano - vão se reconhecendo pelos sotaques e placas dos carros em destaque.
O barquinho continua beijando o mar...

 

 

 

VENDE-SE

 

Era uma casa de praia sem areia no chão, sem correria de crianças, com sofá vazio e fogão desligado. Sozinha, lá estava eu na imensidão inadequada.
Vejo marcas de pés pequenos na parede frontal. Nos quartos, deparo com um quadro de dicas para se viver bem. Reparo na data: 1995. Sem peso na consciência, sigo nada que o quadro sugere, afinal estamos em 2010.

A mesma praia, a mesma casa e novos medos. Antes, o quintal era o refúgio e o “quarto de castigo” apavorava. Hoje, é a placa Vende-se que me amedronta. Outras pessoas sonharão meus sonhos na cama barulhenta.
O vídeo-game nem espera por mãos aflitas. As primas e primos seguiram o seu destino. A rede: simplesmente vazia! Acho até que ela nem mais existe, é apenas uma projeção de uma mente saudosa.

Casa de praia e nenhuma cerveja na geladeira fantasma. Não há música, nem desenhos de sol no chão. A única coisa que encontro é Renata de cara com o passado, ouvindo o Barquinho, relembrando a infância e um antigo verão.

 

 
 

 

SEM METAL

 

A moça solta a juba e o vento causa reboliço. Ela admira o namorado, sorri e volta a prender a cabeleira de uma forma tão forte, como se quisesse segurar a vida ou à própria morte.
Maysa continua cantando no fone de ouvido, me entristeço ao lembrar que a canção não é eterna. E volto, repito, retorno “O Barquinho” mais de uma vez. Agora - no Quiosque - Ivete da Perna Grossa “mia” qualquer coisa parecida com “Berimbau Metalizado”. No fone, o violão não tem metal, é apenas sentimento e harmonia, mas nada disso importa... Vivemos num país de futilidades e BBBosta.
O “Berimbau”, a “Poeira” e a “Ladeira” arrastam mesmo toda a massa e a bunda da mulher corcunda balança, enquanto o cérebro atrofia... E nada disso importa hoje em dia.

 

 

 

 

MELHOR NA FOSSA

 

O vendedor de picolé não sabe se coça o saco ou se gasta as moedas em mais uma cachaça.
É cedo e o barquinho leva os turistas para a ilha, que ilhados neles mesmos, admiram a natureza, mas não interagem com ela. Têm medo da água, das ondas, dos peixes, do vento e do balançar tão natural do barquinho.

O picolé derrete e o vento carrega o cheiro de menino arteiro para as narinas da jovem grávida. Ela, aliança nova no dedo e a cabeça cheia de planos e romantismo. Ele, o marido – pensando apenas no futebol – dá um leve sorriso ao relembrar do último gol de seu time. De cara dá para saber quem vai sair sofrendo deste casamento, onde o que importa para o homem é a apenas a bola de futebol como passatempo.
Ah! Maysa, do jeito que as coisas andam, o mais sensato é cair - com sua música - na fossa.

 

 

INÚTEIS FATOS REAIS

 

Agora é Cazuza no fone quem me convida seguir uma viagem em “Um Trem para as Estrelas”. - Ainda é dia! Eu penso: - quero ver o sol e o céu azul.
Os barquinhos parecem formigas na imensidão e eu uma astronauta cheia de apetrechos encima da mesa e vestida de roupa quente em pleno verão. Ousadia é rimar sem métrica e criticar o Axé nesta estação.
Peixinhos de brinquedo são encontrados por uma criança na areia da praia. E ela pergunta admirada: - Mamãe, os peixes morrem fora d’água”?. Queria sinceramente que a mãe respondesse: eles morrem sim, tem que cuidar e dar muito carinho. Mas a mãe se resume em resmungar com má vontade: - Morre não, o peixe é de mentira oh garota burra!
Que triste! Logo, logo a menina vai pensar que Papai Noel não existe... Falta encanto, sobram fatos reais. Nada importa, temos na TV futilidades demais.

 

AINDA É JANEIRO

 

Águas-vivas espantam meninas e meninos da praia. O sol corajosamente amarelo beija e esquenta a areia... E tudo isso importa.
Típicos animais na mata, sombra pouca, água muita. Solidão feliz! Vazio em paz!
O Barquinho vai e à tardinha cai...
Chinelos coloridos embaixo da mesa, vendedores de camarão, carrinho de Queijo Empanado estacionado.
Paz, verde, preguiça, muita preguiça... Sendo janeiro, tudo isso importa. Sim, tudo é paz.
Quantos “heróis” a rede colorida e pendurada no velho coqueiro já balançou? O menino alça vôo nas nuvens imaginárias e dá “de cara” com a realidade quando bate com a “bunda” no chão.
Não, isso nem importa, porque o verão sempre conforta.